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Relógio histórico do Largo da Carioca é restaurado e recupera badalada musical

Pablo Jacob / Agência O Globo
Relógio restaurado virou atração turisticaRelógio restaurado virou atração turistica

Relógio restaurado virou atração turistica

Um novo som está ecoando no Largo da Carioca e atraindo a curiosidade das pessoas que circulam diariamente por um dos trechos mais movimentados do Centro do Rio. A música não vem dos artistas de rua que costumam fazer daquela praça o seu palco, mas de um relógio histórico que acaba de ser restaurado e recuperou as badaladas musicais que haviam sido silenciadas por quase duas décadas.


É uma música diferente para cada hora redonda, das 7h às 21h, num repertório variado que vai da clássica “Aleluia” de Haendel a marchinha “Tá chegando a hora”, de Rubens Campos e Henricão, passando por “Cidade Maravilhosa”, de André Filho; “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira; e “Valsa de uma cidade”, de Ismael Netto e Antonio Maria. As músicas e a sequência são as mesmas introduzidas numa das últimas reformas da peça, em 1999. Pouco tempo depois o relógio deixou de funcionar. Quem passa pelo local, aprova a novidade.


— Ficou muio bonito e gostei da musiquinha. O monumento já fazia parte do meu roteiro, mas agora está bem melhor — aprovou guia turístico Fernando Ruiz, que acompanhava um grupo de turistas de diferentes nacionalidades em um passeio pelo Centro do Rio.


O monumento é de 1909 e era originalmente um lampadário decorativo, composto por peças ornamentais e feitas em ferro fundido. Foi o segundo do Rio. O primeiro lugar da cidade a ganhar esse tipo de iluminação pública especial foi a Lapa, em 1906, logo após a abertura da Avenida Central, atual Rio Branco.


O relógio de quatro faces que está no topo do monumento chegou um pouco mais tarde. Foi instalado em 1947, na gestão do prefeito Mendes de Moraes. Junto com o da Glória, é um dos únicos relógios monumentais da cidade. Sua instalação no alto do lampadário exigiu uma adaptação com a remoção das luminárias superiores, tendo sido mantidas apenas as inferiores.


Apesar de ter sobrevivido às diversas transformações do Largo da Carioca ao longo dos anos — na década de 1970 precisou ser desmontado e guardado, por conta das obras do metrô —, o monumento não ficou livre da degradação, da ação do vandalismo e do furto de peças e equipamentos, além da ação do tempo. Problemas como esse fizeram com que a restauração minuciosa demorasse seis meses para ser concluída.


— O monumento estava abandonado há muito tempo. Tinha muitas peças faltando, que foram roubadas, muita ferrugem e sujeira. Toda a parte de mecanismo do relógio teve de ser substituída e modernizada. Além disso, havia muitas pedras do piso quebradas, na base do monumento, e precisaram ser trocadas. Foi um trabalho difícil — afirmou Francisco Monteiro, dono da AQ Engenharia, responsável pela restauração, que foi bancada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).


Segundo Monteiro, a parte mais complicada foi a restauração das peças em ferro fundido, como as esculturas, que ficam numa base circular do monumento onde se apoiam três sereias aladas representando o comércio, a indústria e a navegação. Ele contou que para esse trabalho teve de correr atrás de empresas em outros estados, porque não há mais quase lugares onde se fazer fundição artística no Rio de Janeiro, onde essa atividade está praticamente extinta.


A recuperação das peças também exigiu um verdadeiro trabalho de pesquisa. Os restauradores tiveram de ir atrás de imagens fotográficas do monumento e seus detalhes, sendo que algumas delas só foram encontradas na Biblioteca Nacional. Ainda assim, apenas a sereia que representa o comércio está segurando uma tocha. Nas outras duas, optou-se por deixar as mãos vazias por não haver registro fotográfico do que elas seguravam.


Vera Dias, gerente de Monumentos e Chafarizes da prefeitura disse que para facilitar futuros trabalhos de recuperação e restauração toda a peça está sendo escaneada em três dimensões. Na manhã desde segunda-feira, uma equipe de digitalização de patrimônio, munida inclusive de drone, colhia imagens do monumento.


— A igreja (convento de Santo Antônio, no mesmo largo) é uma coisa que já chama atenção e ter mais esse elemento na praça é muito importante para a cidade e para a autoestima do carioca — aponta a gerente de monumentos, que destaca a importância da parceria com o BNDES — Num momento de crise não tinha como (a prefeitura) fazer (a restauração) e a adoção funcionou bem nesse sentido.


O jornaleiro José Preciliano, de 62 anos, há 40 trabalhando numa banca no Largo da Carioca gostou do resultado. Cobrou apenas a mesma atenção para o entorno.


— Deu vida a esse lugar, que é uma concentração de turistas e ponto de encontro dos cariocas. Agora o relógio tem até badalada musical . Tudo que é bonito chama a atenção. Vai virar uma referência. Agora é preciso a mesma atenção com o entorno. O piso está cheio de buracos e altos e baixos, porque a praça recebe muitos eventos e os organizadores metem ferro no chão para segurar as estruturas e isso tira as pedras — cobrou, acrescentando que os problemas com camelôs e moradores de rua diminuíram com a instalação de uma base do Centro Presente no local.


O restaurador Marconi Andrade, criador “SOS Patrimônio” grupo que faz mutirões para cuidar de monumentos abandonados pelo poder público, cobrou uma participação maior das empresas e da sociedade no cuidado com o bem público, a exemplo do que fez o BNDES com o relógio da Carioca.


— Meu deu uma felicidade enorme (a restauração do monumento). Foi uma restauração bancada pela iniciativa privada. Nosso sonho é trazer as empresas e a sociedade civil para essa causa. Mas, para isso é necessário um sentimento de pertencimento que não existe nas empresas nem na população. As pessoas costumam achar que só é delas o que está da porta de suas casas para dentro.


A empresa que fez a restauração informou que o serviço tem garantia de um ano e ainda está passando por ajustes. Isso explica, por exemplo, porque uma das faces do relógio (a que dá para a praça) marcava hora diferente na manhã desta segunda-feira. O monumento que é tombado desde 1983 pelo Instituto Estadual de Patrimônio Cultural (Inepac) está sobre o desenho de pedras portuguesas de Burle Marx.


Sobre o piso, a Secretaria municipal de Conservação informou que vai enviar uma equipe no local para vistoriar e tomar as providências necessárias.

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